A nudez de Francisco

 

Não contente com ter recuperado seu dinheiro, tratou de fazer com que Francisco fosse levado até ao bispo da diocese, onde ele deveria renunciar a toda a sua herança e devolver-lhe tudo que tinha. No seu autêntico amor à pobreza, Francisco nada opunha a essa cerimônia e se apresenta de boa mente diante do bispo e. sem esperar um minuto nem hesitar de qualquer forma, sem aguardar qualquer ordem nem pedir qualquer explicação, tira imediatamente todas as suas vestes e as entrega ao pai. Todos viram então que, sob as vestes finas, o homem de Deus levava um cilício. Despiu mesmo os calções, em seu fervor e entusiasmo, e ficou nu diante de todos. Então disse ao pai: “Até agora chamei-te meu pai, mas de agora em diante posso dizer sem qualquer reserva: ‘Pai nosso que estais no céu’, pois foi a ele que confiei meu tesouro e nele depositei minha fé”. O bispo, que era um homem santo e muito digno, chorava de admiração ao ver os excessos a que o levava seu amor a Deus; levantou-se, abraçou-o e envolveu-o no seu manto, ordenando que trouxessem alguma roupa para cobri-lo. Deram-lhe um pobre manto que pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo; Francisco o recebeu agradecido e, depois, havendo encontrado um pedaço de giz no caminho, traçou uma cruz sobre o manto. Muito expressiva era semelhante veste neste homem crucificado, neste pobre seminu. Dessa forma, o servo do Grande Rei foi. deixado nu para seguir as pegadas de seu Senhor atado nu à cruz e foi assim também que ele adotou essa cruz como emblema, a fim de confiar sua alma ao madeiro que nos salvou e por meio dele escapar são e salvo do naufrágio do mundo.

 (São Boaventura, Legenda Maior 4)

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